Muitos Alarmes. Diversas Pílulas

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Sempre imaginei que ser obrigada a carregar uma bolsinha repleta de remédios ficaria para quando chegasse a terceira idade. Mas a triste atual e cruel realidade do mundo é: o comum é acontecer antes mesmo dos 30.

Pode ter sido este, em meio tantos pensamentos que me fez torcer o nariz quando a palavra : “Remédio” foi pronunciada pela primeira vez no consultório. Ah! O tabu.

Estou ficando louca. É isso.

Não é isso. Mas tem sido quase.

Sou naturalmente e tragicamente esquecida, eu preciso de alarmes. Mas eles não me fazem bem.

Bom, imagina ser uma pessoa ansiosa e saber que o dia todo você está esperando por alguma coisa, e essa coisa é importante, e você não pode esquecer ou atrasar. Então sim, o toque do meu alarme obviamente não pode ser uma canção que gosto, tem que ser dessas genéricas mesmo, porque a gente sabe. Vamos odiá-la. Muito.

Às vezes eu me lembro, do horário. É um inferno porque é sempre minutos antes, e eu fico apenas encarando meu celular com o coração disparado esperando ele tocar. Ou quando estou no trabalho, ocupada, eu coloco em modo soneca, muito brava, e brigo com ele:  “Já seeei, calma!” 

Ou a pior de todas, acordar sempre pontualmente às seis horas pensando: meus remédios.

Devaneios de uma representante dessa juventude louca que nunca desacelera, mas que às vezes gostaria, só que do jeito errado.

 

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Se eu pudesse me ver como teus olhos me dizem ser… Eu desejaria algo além de ossos perdidos sob a pele?

Eu gostaria de ficar para o jantar e não sentir a culpa, não derramar nenhuma lágrima, não me punir das tantas maneiras que eu sei. Houve um tempo em que jantares, lanches e beliscos da tarde eram cheios de prazer.

Eu já nem me lembro mais.

Eu entendo, que você não entenda

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Veio como uma chuva fraca, nuvens cinzas e uma brisa sutil feito um sussurro.

Hoje, é fácil perceber o quão lentamente as raízes cresciam e se esgueiravam adentro, mesmo assim, todos os sinais foram ignorados, por mim.

Por todos.

Eu a deixei entrar.

Bem no fundo, sempre soube da sua presença, inclusive, lutei por muito tempo para fugir, mas seja qual for a explicação científica ou espiritual, sinto que tudo sempre esteve dentro de mim, e apenas foi transbordando conforme a vida, e ao fato de que definitivamente eu não sei lidar com ela.

A vida. Estar viva, nunca fez muito sentido para mim.

Então, eu entendo que você não entenda. E desejo que assim permaneça.

Às vezes tem motivo, mas a verdade é que quase nunca tem.

Vem como uma chuva fraca, nuvens cinzas, e uma brisa sutil feito um sussurro, até virar tempestade, e levar com ela a cada crise, um pouquinho da sua esperança, até não restar nada. Apenas nuvens negras, medo, cansaço e solidão.

Para Dias Cinzas e Chuvosos

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“não quero ter você

para preencher minhas partes vazias

quero ser plena sozinha

quero ser tão completa

que poderia iluminar a cidade

e só aí

quero ter você.”

-R.K.

Caro amor,

O nosso inverno já acabou, passamos pela primavera sem perceber a falta do frio, talvez seja a quantidade rotineira da chuva, bem como os ventos frescos, ainda sinto que estamos em dias cinzas.

Caro amor,

Os dias correram, e embora eu tenha feito de tudo para encontrar desculpas, nós fomos felizes, e eu sou grata por sempre ficar, mesmo quando há tanto motivo para fazer você ir.

Caro amor,

Ontem quando me beijou na chuva, meu coração batia tão forte, e todo o medo que eu sentia por achar que não sobreviveríamos se esvaiu com a água.

Caro amor,

Os dias cinzas acabaram, segure minha mão e vamos atravessar esse verão de forma que juntos, façamos ser tudo colorido.

Caro amor,

Quero ter você completo de maneira que eu também esteja completa, assim seremos inteiros juntos.

Verão a dentro.

Vida a dentro.

Para dias cinzas e chuvosos, ensolarados e coloridos.

Grande como o Mundo

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-Você vai voltar?

Fitei seus olhos negros com relutância, tinha medo do que poderia encontrar, se houvesse o menor resquício de chama que fosse, eu cairia; eu cairia no mais profundo abismo sem volta, sem a mínima chance de me salvar.

O menino dos olhos tão escuros quanto o céu tagarelava desculpas que ele mesmo gostaria de acreditar, eu torcia minhas mãos no pano fino do meu vestido florido. Era noite e era verão, o vento quente e salgado jogava os fios rebeldes dos meus cabelos nos olhos; me deleitei com o céu cheio de estrelas, sentindo uma repentina vontade de caminhar descalça na areia e deixar a brisa do mar me conduzir pra onde quer que fosse, porque eu já não queria ouvir o que ele tinha a me dizer, suas palavras vazias e treinadas. 

Ele me tocou no rosto, e eu não tive escolha a não ser olhar em seus olhos, pois eram como ímãs negros me atraindo, sem que eu tenha chance de afastá-los.

-Me desculpe, vamos voltar está bem? – Pediu. A voz era um sussurro.

Uma parte tola do meu corpo pedia que eu pegasse sua mão e caminhasse para seu grande prédio azul, a parte patética dos meus lábios pedia apenas que ele me beijasse, e a pequena parte inteligente do meu cérebro implorava que eu fosse embora. 

Respirei fundo desviando o olhar para as ondas se quebrando no mar, eu podia ver a luz da lua refletindo na água, era tudo tão bonito… Olhei para as estrelas mais uma vez e elas pareciam piscar, como se fossem pequenos pontos de esperanças, como se eu pudesse pegar cada uma delas.

E foi o que eu fiz.

Um sorriso triste escapou dos meus lábios ao mesmo tempo em que sentia uma trilha quente escorrer pelo meu rosto. Levantei com os punhos cerrados, tomada de uma coragem que por tanto tempo esperei.

-Sabe, somos muito pequenos juntos. E eu quero ser grande, eu quero ser grande como o mundo.

Ele piscou enquanto as engrenagens trabalhavam arduamente para entender o que eu estava querendo dizer. Tentou pegar minha mão, mas eu me afastei.

-Eu posso ser muito mais sozinha, do que apenas pequena com você.

Chutei minhas sandálias no concreto da calçada e desci até a areia fofa da praia, a brisa salgada me acompanhava, assim como aqueles olhos negros feito o céu da noite.

A noite que eu nunca mais veria.

A noite que nunca mais me prenderia.

Setembro

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Você vai me odiar e nada poderei fazer sobre isso. Fomos mais que tempo perdido, mesmo que eu não tenha com o que comparar, eu posso saber, porque observar e escutar demais as pessoas proporciona lições valiosas da vida. E você diz que eu devo amar mais a vida, ser menos amarga, e dar chances as pessoas.

Tenho falhado.

Você vai me deixar, e eu soube desde o momento em que nos beijamos pela primeira vez embaixo da garoa fina, de um dia frio de setembro com os corações sangrando por outras pessoas. Soube pelo jeito que me agarrava pelo casaco com desespero como se dissesse “me salve”, e eu quase podia ouvir, soube pelo jeito como você foi terminando aquele beijo de forma urgente e doce, e quando olhei no seu rosto completamente desconhecido senti aquele frio na barriga, e de repente ficou tudo quente. Fui pra casa com seu cheiro e seu gosto na boca, e eu soube que iria me deixar porque quando subi naquele ônibus depois de me despedir, sentia vontade de descer e correr de volta pra você, porque sim, eu já estava apaixonada, e estar apaixonada não faz com que as coisas terminem bem pra mim, não faz com que as coisas terminem bem para nenhum de nós, não quando há tanta bagagem.

E era tanta. Não é mesmo?

Dias Escuros

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Quero poder sentir a luz me alcançar, mas meus dias são tão escuros.

Quando me deito, todos os meus medos se levantam.

E eu gostaria de poder segurar sua mão, está tudo tão difícil.

Estou sempre tropeçando em minhas palavras, tentando clarear a minha mente, são tantas coisas que eu gostaria de poder dizer a mim mesma. Mas nunca há um encaixe, é como se eu não pertencesse aqui. Ou a qualquer outro lugar.

Quero poder sentir a luz me alcançar, mas meus dias são tão escuros. Eu sinto que não pertenço aqui.

Eu não pertenço a lugar algum.